Pesquisa do iFood e da WGSN aponta interesse por receitas tradicionais de diferentes regiões do país. Para os restaurantes, a oportunidade envolve novos públicos, mas também desafios de preparo, transporte e preservação da identidade gastronômica.
- Como a gastronomia regional no delivery encontra novos públicos
- O crescimento do delivery fora do Sudeste amplia as possibilidades
- Barreado e tacacá mostram a importância de preservar o preparo
- A cozinha regional também carrega trabalho, memória e identidade
- O cardápio digital precisa contar a história do prato
- Entre a curiosidade e o pedido existe uma operação
- A comida regional encontra novos caminhos sem perder suas origens
- Fontes consultadas
O barreado, preparado lentamente até que a carne se desmanche, é uma das receitas mais conhecidas do litoral paranaense. No Norte do Brasil, o tacacá reúne tucupi, goma de mandioca, camarão seco e jambu em uma cuia servida quente. São preparações com histórias e modos de consumo distintos, mas que começam a aparecer na mesma discussão sobre o futuro da alimentação fora do lar: o interesse pela gastronomia regional no delivery.
Um estudo desenvolvido pelo iFood em parceria com a consultoria de tendências WGSN identificou uma disposição relevante dos consumidores para experimentar pratos de outras regiões brasileiras. Divulgado em setembro de 2026, o levantamento integra o relatório Tendências do Foodservice 2027 e aponta oportunidades para restaurantes que trabalham com ingredientes e tradições culinárias locais.
O barreado aparece entre os exemplos mais expressivos. Segundo os dados divulgados, 54% dos entrevistados afirmaram que ainda não haviam provado o prato, mas tinham vontade de experimentá-lo. O percentual foi de 49% para o tacacá e de 44% para o pato no tucupi, duas especialidades associadas à cozinha amazônica.
Os números revelam curiosidade por receitas que ainda não fazem parte do repertório alimentar de uma parcela do público pesquisado. Isso, porém, não equivale a pedidos realizados nem garante que o interesse se converta em consumo.
Como a gastronomia regional no delivery encontra novos públicos
A circulação de receitas entre diferentes regiões brasileiras não começou com os aplicativos de entrega. Restaurantes especializados, migrações internas, feiras gastronômicas e estabelecimentos familiares já desempenham esse papel há décadas.
O delivery acrescenta outro canal a essa circulação. Um prato tradicional pode aparecer no aplicativo de alguém que nunca visitou sua região de origem, permitindo um primeiro contato com ingredientes e preparações que não fazem parte do cardápio habitual.
Essa exposição é especialmente relevante para cozinhas que dependem de referências culturais específicas. O nome de uma receita nem sempre explica como ela é preparada, quais ingredientes utiliza ou o que o consumidor deve esperar ao recebê-la.
No caso do tacacá, por exemplo, o caldo de tucupi acompanha a goma de mandioca, o camarão e o jambu, erva conhecida pela sensação característica que provoca na boca. Para quem não conhece a preparação, uma boa descrição do prato pode ser tão importante quanto a fotografia.
O levantamento do iFood e da WGSN também aponta interesse em voltar a consumir receitas já experimentadas. Entre os entrevistados que provaram arroz carreteiro, 73% afirmaram que gostariam de repetir a experiência. No caso do baião de dois, o percentual chegou a 67%.
Esses resultados medem intenção declarada de voltar a consumir os pratos, e não uma taxa efetivamente observada de recompra.
A distinção importa para os negócios. O interesse em experimentar pode estimular um primeiro pedido, enquanto a frequência de consumo depende de fatores como satisfação com a comida, preço, conveniência e regularidade da entrega.
O crescimento do delivery fora do Sudeste amplia as possibilidades
O interesse pela cozinha regional aparece em um período de expansão das plataformas de entrega por diferentes partes do Brasil.
Segundo os dados apresentados pelo iFood, o volume de pedidos na plataforma cresceu 19,4% na Região Norte em 2025, na comparação com 2024. O Centro-Oeste registrou alta de 16,3%, seguido pelo Nordeste, com 13,5%, Sul, com 11,7%, e Sudeste, com 8,4%.
Esses percentuais correspondem ao crescimento geral de pedidos em cada região, não exclusivamente às vendas de pratos tradicionais.
O avanço ajuda a mostrar como o delivery amplia sua presença para além de seus mercados mais consolidados. Para restaurantes locais, essa expansão pode representar acesso a consumidores que já utilizam o aplicativo para outras refeições, mas ainda não conhecem determinadas especialidades.
A procura por categorias culinárias específicas também mudou. Entre 2024 e 2025, as buscas por comida asiática cresceram 23% no aplicativo. Na sequência aparecem as culinárias francesa, com 16,1%, baiana, com 13,2%, tailandesa, com 12,8%, nordestina, com 12,1%, e árabe, com 10,5%.
Os dados de busca não devem ser confundidos com crescimento das vendas. Ainda assim, mostram que parte dos usuários procura opções que ultrapassam os segmentos mais frequentemente associados ao delivery.
Para estabelecimentos especializados em gastronomia brasileira, isso pode favorecer cardápios capazes de apresentar ingredientes, técnicas e receitas regionais de maneira clara e acessível.
Barreado e tacacá mostram a importância de preservar o preparo
As oportunidades comerciais também colocam uma questão prática para os restaurantes: transportar pratos tradicionais sem comprometer as características que os definem.
O barreado é um exemplo interessante. Associado ao litoral do Paraná, especialmente a municípios como Morretes, Antonina e Paranaguá, o prato utiliza carne bovina cozida por muitas horas, até atingir uma textura extremamente macia. A preparação tradicional envolve uma panela vedada durante o cozimento e costuma ser acompanhada de farinha de mandioca e banana.
Seu preparo demorado contrasta com a expectativa de rapidez frequentemente associada aos aplicativos. Uma operação de delivery precisa organizar a produção com antecedência e determinar como o prato será porcionado, embalado e finalizado pelo cliente, quando necessário.
O tacacá apresenta outro tipo de desafio. A experiência tradicional inclui um caldo quente servido em cuia, com ingredientes que possuem texturas bastante diferentes.
Durante uma entrega, manter o tucupi na temperatura adequada e evitar alterações indesejadas na consistência da goma exige atenção à montagem e à embalagem. Separar determinados componentes pode ser uma solução operacional, desde que isso não transforme a receita em uma preparação distante daquela que o restaurante pretende oferecer.
As embalagens precisam ser adequadas ao contato com alimentos, e o transporte deve respeitar as condições de tempo e temperatura exigidas pelas boas práticas sanitárias.
A complexidade dessas receitas mostra que a entrada de um prato no aplicativo envolve decisões de cozinha, logística e apresentação. O resultado precisa fazer sentido tanto para quem já conhece a especialidade quanto para quem está experimentando pela primeira vez.
A cozinha regional também carrega trabalho, memória e identidade
O interesse comercial pela culinária brasileira abre espaço para um debate que vai além do cardápio.
Em novembro de 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Ofício das Tacacazeiras da Região Norte como Patrimônio Cultural do Brasil, com inscrição no Livro dos Saberes.
O reconhecimento contempla os conhecimentos e as práticas envolvidos no preparo e na comercialização do tacacá, valorizando especialmente o trabalho das mulheres que preservam essa tradição em cidades amazônicas.
O ofício envolve relações que não podem ser reduzidas aos ingredientes. As tacacazeiras atuam em praças, feiras, mercados e outros espaços urbanos, mantendo formas de preparo e de atendimento transmitidas entre gerações.
Essa dimensão cultural merece atenção quando restaurantes de outras regiões passam a trabalhar com receitas tradicionais.
Apresentar um prato regional pode ser uma forma de ampliar o conhecimento sobre sua origem. Para isso, é importante reconhecer as comunidades responsáveis por sua continuidade, utilizar denominações corretamente e explicar adaptações realizadas no preparo.
Também existe uma diferença entre reproduzir uma receita tradicional e desenvolver uma releitura inspirada nela. Ambas as propostas podem ter espaço comercial, desde que essa distinção seja transparente para o consumidor.
O cardápio digital precisa contar a história do prato
O relatório do iFood e da WGSN identifica a valorização da culinária brasileira entre as tendências do foodservice e aponta o interesse por ingredientes, receitas e referências regionais.
Para restaurantes, uma aplicação possível está na forma de apresentar essas preparações dentro dos aplicativos.
O nome de uma especialidade pode ter enorme reconhecimento em sua região de origem e, ao mesmo tempo, ser pouco familiar para consumidores de outros estados. Uma descrição objetiva, acompanhada de fotografias fiéis ao produto, ajuda a aproximar esses públicos.
No caso do pato no tucupi, explicar que a receita combina pato, tucupi e jambu oferece um ponto de partida para quem nunca teve contato com a cozinha paraense.
O mesmo vale para o barreado, cuja aparência pode não revelar imediatamente o tempo de cozimento e a relação com seus acompanhamentos tradicionais.
A comunicação também precisa respeitar as características reais do produto entregue. Fotografias excessivamente produzidas ou apresentações que não correspondem ao conteúdo da embalagem podem criar expectativas difíceis de atender.
Entre os exemplos apresentados no relatório está a operação Amazônia na Cuia, que trabalha com produtos regionais e utiliza o aplicativo para sugerir itens complementares, como bombons e biscoitos elaborados com ingredientes amazônicos, entre eles cupuaçu, bacuri e castanha-do-pará.
A iniciativa mostra uma possibilidade de ampliar a oferta para além do prato principal. Doces, bebidas e acompanhamentos podem ajudar a apresentar outras referências alimentares de uma região, desde que façam sentido na proposta do estabelecimento.
Entre a curiosidade e o pedido existe uma operação
A expansão de pratos regionais no delivery pode favorecer restaurantes especializados, mas o levantamento não significa que qualquer receita tradicional terá procura suficiente para sustentar uma operação.
O interesse declarado em uma pesquisa é apenas uma das informações disponíveis para orientar decisões comerciais.
Os estabelecimentos precisam considerar a oferta de ingredientes, a consistência do preparo, os custos de embalagem, as taxas da plataforma e a distância que o produto pode percorrer mantendo suas características.
Para algumas receitas, a produção antecipada e a finalização organizada podem facilitar o serviço. Em outras, ingredientes delicados ou montagens específicas tornam o transporte mais complexo.
Há ainda uma questão de posicionamento. Um restaurante especializado pode construir sua reputação em torno de uma tradição culinária, enquanto uma operação com cardápio mais amplo talvez encontre espaço para apresentar determinadas receitas como especiais de temporada.
A escolha depende da capacidade da cozinha de executar o produto com regularidade e da existência de público na área atendida.
A gastronomia regional no delivery também pode oferecer oportunidades para pequenos produtores e fornecedores de ingredientes característicos, embora essa possibilidade dependa da organização de cadeias de abastecimento adequadas a cada negócio.
Para a indústria e para o foodservice, a valorização de receitas brasileiras representa um campo de desenvolvimento que envolve matéria-prima, técnicas culinárias, apresentação e comunicação.
A comida regional encontra novos caminhos sem perder suas origens
A possibilidade de pedir um barreado fora do litoral paranaense ou conhecer o tacacá por meio de um aplicativo amplia os caminhos de circulação da gastronomia brasileira.
O levantamento do iFood e da WGSN indica que existe curiosidade por esses sabores, mas a passagem do interesse para o consumo depende da qualidade da experiência oferecida.
A expansão do delivery cria condições para que restaurantes apresentem especialidades a públicos que antes dificilmente teriam contato com elas. O desafio é fazer isso respeitando os ingredientes, as técnicas e os conhecimentos que sustentam cada tradição.
Quando uma receita regional chega a uma nova cidade, seu valor não está somente na possibilidade de ampliar o cardápio. Está também na história de quem a prepara, na relação com seu território e na maneira como esses elementos conseguem acompanhar o prato até a mesa do consumidor.
Fontes consultadas
- iFood — Relatório de Tendências do Foodservice 2027 — publicação oficial sobre o estudo desenvolvido com a WGSN.
- CNN Brasil — IA, umami e conteúdos virais: tendências do foodservice — cobertura dos dados divulgados em setembro de 2026.
- E-Commerce Brasil — iFood e WGSN indicam tendências para o setor — pesquisa e comportamento de consumo.
- Mundo Foodservice — Tendências do Foodservice 2027 — análise das 15 tendências do relatório.
- Iphan — Reconhecimento do Ofício das Tacacazeiras — novembro de 2025.
- Paraná Turismo — Barreado — história, ingredientes e características do prato.
- Anvisa — Regulamentação de embalagens para alimentos — requisitos para materiais destinados ao contato com alimentos.

