Com apoio do SENAI, uma empresa de São Luís transforma larvas em farinha proteica e óleo, enquanto estuda aproveitar resíduos de cervejarias e indústrias de frutas. A tecnologia ainda está em escala piloto, mas abre novas possibilidades para a bioeconomia brasileira.
- Como a proteína de insetos se transforma em farinha?
- Resíduos de cervejarias podem alimentar uma nova cadeia produtiva
- Uma biorrefinaria que vai além da farinha proteica
- O papel do SENAI no desenvolvimento da tecnologia
- A proteína de insetos pode ser utilizada na alimentação humana?
- O que essa inovação representa para o mercado de alimentos?
- Do laboratório à indústria: o próximo desafio da Biofábrica
E se parte dos resíduos de uma cervejaria pudesse ajudar a produzir uma nova fonte de proteína? A ideia parece distante da rotina da indústria alimentícia, mas já faz parte de um projeto em desenvolvimento no Maranhão.
A Biofábrica São Luís está trabalhando com a criação de insetos para obter farinha proteica, óleo e outros componentes de interesse industrial. A matéria-prima é o Tenebrio molitor, espécie de besouro conhecida pela fase larval, popularmente chamada de larva-da-farinha.
O projeto conta com apoio do Hub SENAI de Inovação e Tecnologia e procura desenvolver um modelo produtivo que conecte proteínas alternativas, aproveitamento de resíduos e aplicações industriais.
A iniciativa ainda não representa um produto alimentício pronto para chegar às prateleiras. Mas aponta para uma questão que ganha importância no setor: como produzir novos ingredientes aproveitando melhor os recursos já disponíveis?
Como a proteína de insetos se transforma em farinha?
A produção começa com a criação controlada das larvas de Tenebrio molitor.
Durante o desenvolvimento, os insetos passam por etapas de alimentação, manejo e reprodução. Posteriormente, parte da biomassa é processada para obtenção de diferentes matérias-primas.
Entre os resultados estão a farinha proteica e o óleo, que podem ser estudados para distintas aplicações industriais.
O modelo é conhecido como biorrefinaria, conceito que busca aproveitar diferentes frações de uma mesma matéria-prima, em vez de concentrar toda a operação na fabricação de um único produto.
No caso dos insetos, esse aproveitamento também abre possibilidades para componentes como quitina e quitosana, estudados em áreas como materiais e agricultura.
A ideia é ampliar o potencial econômico da biomassa. Contudo, cada aplicação exige processos específicos de desenvolvimento e validação.
A Biofábrica já trabalha com a obtenção desses materiais em escala experimental e procura avançar para uma produção de maior capacidade.
Resíduos de cervejarias podem alimentar uma nova cadeia produtiva
Um dos aspectos mais interessantes da iniciativa está na origem dos insumos utilizados na criação dos insetos.
A alimentação das larvas pode incorporar determinados subprodutos provenientes de outras atividades industriais, desde que sejam adequados ao sistema produtivo.
Entre as possibilidades identificadas estão materiais gerados pela fabricação de cerveja artesanal e pelo processamento de frutas.
No ambiente de inovação do SENAI, a Biofábrica encontrou oportunidades de colaboração com três negócios:
- Cervejaria Dona: possibilidade de aproveitar subprodutos da produção cervejeira.
- Acerolima: fabricante de polpas de frutas, com resíduos provenientes do processamento.
- Sabor da Ilha: produtora de geleias, que também gera cascas e bagaços durante sua operação.
Essa integração permite enxergar o resíduo industrial de uma maneira diferente.
Aquilo que sobra de uma atividade pode, em determinadas condições, servir de insumo para outra.
O resultado é uma proposta de economia circular, na qual materiais permanecem em uso por mais tempo e podem adquirir novas funções econômicas.
Entretanto, existe uma diferença entre o potencial de aproveitamento e os benefícios efetivamente comprovados.
Ainda não foram divulgados indicadores suficientes para determinar a quantidade de resíduos reaproveitados ou medir a redução de custos e de impactos ambientais obtida pelo projeto.
Por isso, o interesse da iniciativa está tanto no conceito quanto na necessidade de demonstrar sua viabilidade em escala maior.
Uma biorrefinaria que vai além da farinha proteica
Quando falamos em proteína de insetos, a associação mais imediata costuma ser a alimentação.
Mas o projeto da Biofábrica São Luís possui uma proposta industrial mais ampla.
A farinha proteica representa apenas uma das possibilidades de aproveitamento. O óleo e outros componentes extraídos da biomassa podem encontrar aplicações em segmentos diferentes, dependendo de suas propriedades e da regulamentação aplicável.
Essa diversificação pode ser relevante para o modelo de negócios.
Uma operação que consegue desenvolver diferentes produtos a partir da mesma matéria-prima pode explorar mercados distintos e reduzir sua dependência de apenas uma aplicação comercial.
É uma lógica semelhante à de outras cadeias industriais nas quais o aproveitamento dos subprodutos ajuda a ampliar o valor da produção.
O desafio está em desenvolver processos consistentes, padronizar os materiais obtidos e encontrar compradores para cada fração produzida.
Nesse cenário, o conhecimento técnico passa a ser tão importante quanto a criação dos insetos.
O papel do SENAI no desenvolvimento da tecnologia
A Biofábrica São Luís integra o Hub SENAI de Inovação e Tecnologia, um ambiente voltado à aproximação entre empresas, pesquisadores e projetos industriais.
A estrutura oferece apoio em áreas como pesquisa aplicada, prototipagem, desenvolvimento tecnológico e articulação de parcerias.
Para a Biofábrica, a participação ajuda a enfrentar uma etapa decisiva: a passagem de um sistema experimental para uma operação industrial.
Segundo informações divulgadas pela Agência de Notícias da Indústria, o projeto encontra-se na fase de protótipo funcional e validação em escala piloto.
A empresa também comercializa tenébrios vivos, atividade distinta da futura oferta de ingredientes industrializados.
A expansão dependerá da capacidade de organizar o processo de criação, assegurar a regularidade da matéria-prima, validar os componentes produzidos e atender às exigências dos mercados pretendidos.
Não basta demonstrar que a farinha pode ser obtida.
É necessário comprovar que o processo consegue entregar qualidade, segurança e consistência em condições comerciais.
A proteína de insetos pode ser utilizada na alimentação humana?
Essa é uma das questões mais importantes quando o assunto chega ao setor alimentício.
Insetos são consumidos em diferentes culturas, e suas proteínas vêm sendo estudadas como alternativa para o desenvolvimento de ingredientes.
Entretanto, a utilização de uma farinha de insetos em alimentos comercializados no Brasil depende do enquadramento regulatório aplicável.
A Anvisa estabelece procedimentos para avaliação de segurança e autorização de novos alimentos e ingredientes, conforme a RDC nº 839/2023.
A análise pode envolver composição, processo produtivo, finalidade de uso e possíveis riscos à saúde.
A segurança também merece atenção porque ingredientes derivados de insetos podem apresentar potencial alergênico, inclusive com possibilidade de reatividade cruzada em pessoas sensíveis a crustáceos e ácaros.
Isso significa que as condições de criação, o processamento e a caracterização do ingrediente precisam ser avaliados cuidadosamente.
No caso da Biofábrica São Luís, as informações públicas consultadas não demonstram uma autorização específica para a comercialização de sua farinha proteica como ingrediente destinado ao consumo humano.
Portanto, é fundamental diferenciar uma tecnologia promissora de um alimento já autorizado para venda.
O que essa inovação representa para o mercado de alimentos?
A busca por proteínas alternativas envolve muito mais do que encontrar novas matérias-primas.
Para a indústria, também entram na equação fatores como custo de produção, segurança, disponibilidade de insumos, aceitação do consumidor e facilidade de incorporação às formulações.
Uma farinha proteica obtida de insetos pode despertar interesse em pesquisa e desenvolvimento, mas seu desempenho precisa ser demonstrado em aplicações concretas.
Aspectos como sabor, aroma, cor, comportamento tecnológico e estabilidade são relevantes quando se pensa na elaboração de um produto alimentício.
Além disso, existe uma barreira cultural.
A presença de ingredientes derivados de insetos ainda pode causar estranhamento em parte dos consumidores brasileiros.
Nesse contexto, a comunicação transparente sobre a origem e a finalidade do ingrediente será tão importante quanto suas características nutricionais.
Também será necessário avaliar se o custo final permite competir com fontes proteicas já consolidadas.
A inovação só se transforma em mercado quando consegue reunir viabilidade técnica, segurança regulatória e uma proposta de valor reconhecida pelo comprador.
Do laboratório à indústria: o próximo desafio da Biofábrica
A iniciativa desenvolvida no Maranhão ilustra uma possibilidade interessante para a bioeconomia brasileira.
Ao conectar a criação de insetos ao aproveitamento de materiais provenientes da indústria de alimentos e bebidas, a Biofábrica propõe uma cadeia produtiva que pode gerar diferentes matérias-primas.
O apoio do SENAI representa uma oportunidade de avançar na validação da tecnologia e aproximar o projeto de potenciais parceiros industriais.
Mas os próximos resultados serão decisivos.
A expansão dependerá de dados concretos sobre produtividade, qualidade, custos, segurança e demanda comercial.
Por enquanto, não existe base suficiente para afirmar que a farinha produzida será mais barata, mais sustentável ou nutricionalmente superior às alternativas disponíveis.
O que já é possível observar é o surgimento de uma nova frente de pesquisa e desenvolvimento no setor brasileiro de ingredientes.
A pergunta deixou de ser apenas se insetos podem produzir proteína. O desafio agora é descobrir como transformar essa possibilidade em uma indústria economicamente viável, segura e capaz de aproveitar melhor os recursos que já temos.

