Pesquisa da ADM identifica mudanças nas escolhas dos consumidores e aponta oportunidades para bebidas funcionais, combinações de sabores mais elaboradas e produtos desenvolvidos para diferentes momentos do dia.
- Bebidas funcionais ganham uma dimensão emocional
- O sabor doce continua importante, mas o paladar busca novas experiências
- O momento de consumo passa a influenciar o desenvolvimento dos produtos
- Bebidas sem álcool também ganham espaço na experiência gastronômica
- Oportunidades para a indústria e o foodservice brasileiro
- O futuro das bebidas não alcoólicas vai além da refrescância
O mercado de bebidas não alcoólicas está atravessando uma transformação que vai além da substituição dos refrigerantes tradicionais ou da procura por produtos com menos açúcar. Em 2026, o interesse dos consumidores por novas experiências sensoriais, ingredientes funcionais e opções adaptadas a diferentes ocasiões de consumo começa a influenciar a maneira como a indústria desenvolve e posiciona suas bebidas. Sabor e refrescância continuam importantes, mas já não são os únicos atributos considerados na escolha de um produto.
Essa mudança é apontada pelo Beverage Lifestyle Report 2026, da ADM, empresa global de nutrição e ingredientes. O levantamento analisou hábitos de consumidores em nove mercados, incluindo Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Austrália, e identificou três movimentos que devem orientar a inovação no segmento: a combinação entre funcionalidade e experiência emocional, a valorização de sabores mais complexos e a importância das ocasiões de consumo.
Na prática, isso significa que uma bebida pode ser escolhida não apenas por seu sabor, mas também pelo contexto em que será consumida. Um chá gelado durante o trabalho, uma bebida com eletrólitos após a atividade física ou um coquetel sem álcool em um encontro social atendem a expectativas diferentes, mesmo quando pertencem ao mesmo universo de bebidas não alcoólicas. Compreender essas particularidades passou a ser uma oportunidade para marcas interessadas em ampliar seu portfólio e desenvolver produtos que façam sentido na rotina dos consumidores.
Bebidas funcionais ganham uma dimensão emocional
Uma das principais tendências identificadas pela ADM é a chamada Function with Feeling, expressão que pode ser traduzida como funcionalidade com emoção. A proposta reflete uma mudança na maneira como consumidores percebem os benefícios associados às bebidas. Ingredientes relacionados à hidratação, à energia e à nutrição continuam relevantes, mas a experiência proporcionada pelo produto também participa da decisão de compra.
Essa abordagem abre espaço para águas enriquecidas, chás, bebidas com ingredientes botânicos e formulações que procuram combinar características nutricionais com diferentes sensações de consumo. O interesse não está necessariamente em substituir bebidas tradicionais, mas em ampliar as possibilidades de escolha conforme o momento do dia.
A indústria, porém, enfrenta um desafio: transformar essas expectativas em produtos com benefícios claramente definidos. Uma bebida com vitaminas ou extratos vegetais pode apresentar uma proposta funcional, mas isso não significa que qualquer ingrediente adicionado seja capaz de produzir efeitos específicos sobre relaxamento, concentração ou bem-estar emocional.
No Brasil, as alegações de propriedades funcionais e de saúde são regulamentadas pela Anvisa. Para as marcas, o crescimento da categoria exige não apenas criatividade nas formulações, mas também responsabilidade na comunicação dos benefícios anunciados.
O movimento se conecta à expansão de bebidas fermentadas, que ganharam maior visibilidade entre consumidores interessados em alimentação e bem-estar. Na MoodFood, já exploramos essa transformação na reportagem sobre kombucha, kefir e a nova fase dos alimentos fermentados, destacando como a inovação precisa caminhar ao lado de informações nutricionais consistentes.
O sabor doce continua importante, mas o paladar busca novas experiências
Outra tendência observada no estudo é o avanço de combinações sensoriais mais elaboradas. O consumidor não abandonou a preferência pelo doce, mas demonstra abertura para bebidas que acrescentem novas camadas de sabor a perfis já conhecidos.
Segundo os dados do levantamento divulgados para o setor, 78% das ocasiões de consumo analisadas globalmente ainda valorizam características doces. A oportunidade identificada pela ADM está justamente em explorar esse ponto de partida, combinando dulçor com acidez, picância, notas salgadas, ingredientes botânicos e amargor equilibrado.
Essas possibilidades representam uma mudança interessante para o desenvolvimento de produtos. Em vez de depender exclusivamente de sabores tradicionais ou do lançamento de frutas exóticas, as marcas podem explorar contrastes e criar experiências que se desenvolvem no paladar. Uma bebida cítrica pode ganhar personalidade com gengibre, enquanto um perfil de fruta tropical pode ser combinado com ervas aromáticas, especiarias ou notas mais amargas.
No Brasil, a diversidade de ingredientes regionais oferece um repertório especialmente interessante para esse tipo de inovação. Frutas como jabuticaba, caju, acerola e cupuaçu apresentam características sensoriais diferentes e podem inspirar formulações que valorizem a identidade gastronômica brasileira.
Um exemplo recente dessa valorização de sabores locais é o energético de jabuticaba lançado pela Baly, apresentado em reportagem da MoodFood. Embora o lançamento não esteja diretamente associado ao estudo da ADM, ele ilustra como ingredientes familiares ao consumidor brasileiro podem ganhar espaço em categorias nas quais não eram tradicionalmente utilizados.
A busca por maior complexidade sensorial também favorece o desenvolvimento de tônicas especiais, chás gaseificados, sodas artesanais e bebidas elaboradas com infusões. Para a indústria, o desafio é equilibrar novidade e familiaridade, criando produtos suficientemente diferentes para despertar curiosidade, mas que continuem agradáveis ao público.
O momento de consumo passa a influenciar o desenvolvimento dos produtos
A terceira tendência identificada pela ADM está relacionada às ocasiões de consumo. O relatório classificou oito segmentos definidos pelo contexto em que as bebidas são escolhidas, considerando situações como momentos individuais, deslocamentos, encontros sociais e ocasiões de relaxamento.
Esses segmentos não correspondem necessariamente a grupos fixos de consumidores. Uma mesma pessoa pode buscar uma bebida estimulante pela manhã, preferir algo refrescante durante a tarde e escolher uma opção mais elaborada para acompanhar o jantar. Para as empresas, entender essa dinâmica significa observar a relação entre produto, ambiente, horário e experiência desejada.
O interesse por bebidas adaptadas a diferentes situações também aparece em pesquisas sobre o foodservice. Segundo o Restaurant Beverage Trends Report 2026, da National Restaurant Association, 37% dos consumidores adultos pesquisados nos Estados Unidos compram bebidas sem acompanhá-las de alimentos pelo menos uma vez por semana. Entre integrantes adultos da geração Z, esse percentual chega a 50%.
Os números são referentes ao mercado norte-americano, mas ajudam a ilustrar uma oportunidade relevante para cafeterias, redes de alimentação e estabelecimentos que trabalham com bebidas. Em determinadas ocasiões, o produto deixa de funcionar apenas como acompanhamento da refeição e passa a ser o principal motivo da visita.
Essa perspectiva pode influenciar desde o desenvolvimento de bebidas prontas para consumo até a organização dos cardápios. Cafés gelados, chás especiais, smoothies e criações autorais ganham novas possibilidades quando são pensados para momentos específicos, e não apenas como itens adicionais à oferta de alimentos.
Bebidas sem álcool também ganham espaço na experiência gastronômica
Embora o mercado de bebidas não alcoólicas seja mais amplo do que a categoria de alternativas às bebidas alcoólicas, os dois movimentos compartilham uma característica: a valorização de experiências capazes de atender diferentes necessidades e ocasiões.
Uma pesquisa divulgada pela IWSR em janeiro de 2026 projeta crescimento de 36% no volume global de alternativas sem álcool, como cervejas, vinhos e destilados desalcoolizados, entre 2024 e 2029. A consultoria também identifica avanço nas chamadas bebidas adjacentes ao álcool, categoria que inclui determinadas opções botânicas, funcionais e fermentadas.
O estudo faz uma distinção importante entre os dois grupos. Enquanto a escolha por versões não alcoólicas de produtos tradicionais costuma estar relacionada à moderação do consumo de álcool, outras bebidas são procuradas pela curiosidade, pela experiência sensorial ou por atributos funcionais. Essa diferença reforça a necessidade de entender o contexto de consumo antes de desenvolver ou posicionar um produto.
No Brasil, a categoria também começa a ganhar exemplos próprios. Marcas como a Lucia, que desenvolve aperitivos sem álcool com ingredientes botânicos, mostram como notas amargas, cítricas e herbais podem ser utilizadas para construir bebidas voltadas a momentos de socialização, sem depender da presença do álcool.
Para bares e restaurantes, a transformação abre espaço para cartas de bebidas mais diversificadas, com coquetéis sem álcool, infusões, tônicas especiais e harmonizações pensadas para diferentes pratos. A proposta não é simplesmente oferecer uma alternativa aos refrigerantes, mas tratar essas bebidas como parte da experiência gastronômica.
Oportunidades para a indústria e o foodservice brasileiro
As tendências identificadas pela ADM mostram que o desenvolvimento de bebidas não alcoólicas passa a exigir uma compreensão mais ampla do consumidor. Ingredientes, sabores, benefícios pretendidos e ocasiões de consumo precisam ser considerados em conjunto, especialmente em um mercado que apresenta diversidade de perfis e hábitos alimentares.
Para as fabricantes, isso pode representar oportunidades de reformulação, ampliação de portfólio e criação de produtos com identidade regional. O repertório de frutas, ervas e ingredientes brasileiros oferece possibilidades de diferenciação, enquanto o interesse por conveniência e funcionalidade estimula formatos prontos para beber e opções adaptadas ao cotidiano.
No foodservice, o potencial está na construção de experiências que deem às bebidas maior protagonismo. Uma carta autoral, uma linha de chás especiais ou uma seleção de coquetéis sem álcool pode contribuir para diferenciar um estabelecimento e ampliar as alternativas disponíveis para o consumidor. O sucesso dessas iniciativas, entretanto, dependerá de fatores como preço, execução, apresentação e aceitação do público.
A transformação também exige equilíbrio entre inovação e clareza. Produtos anunciados como funcionais precisam apresentar informações confiáveis, assim como bebidas com propostas sensoriais sofisticadas devem entregar experiências compatíveis com aquilo que prometem.
O futuro das bebidas não alcoólicas vai além da refrescância
O mercado de bebidas não alcoólicas em 2026 demonstra que a relação entre consumidores e produtos está se tornando mais diversificada. A preferência por sabores agradáveis continua sendo determinante, mas abre espaço para outras expectativas, como conveniência, experiências sensoriais, composição nutricional e adequação aos diferentes momentos da rotina.
O estudo da ADM não indica o desaparecimento das categorias tradicionais, mas aponta caminhos para uma inovação mais conectada aos hábitos reais de consumo. Refrigerantes, águas, chás, energéticos e bebidas funcionais podem continuar ocupando espaços distintos, enquanto novas formulações ampliam as possibilidades disponíveis.
Para marcas, fabricantes e operadores de foodservice, a principal oportunidade será compreender o que faz uma bebida ser escolhida em cada ocasião. Mais do que acrescentar ingredientes ou desenvolver sabores diferentes, o desafio está em criar produtos relevantes, agradáveis e coerentes com as expectativas do consumidor.
Afinal, a próxima grande inovação do setor pode estar menos na criação de uma nova categoria e mais na capacidade de transformar um simples momento de consumo em uma experiência gastronômica memorável.

