Criada pela DPZ, a campanha transformou histórias de famílias cafeicultoras em embalagens e filmes publicitários. A estratégia mostra como a origem do produto pode fortalecer a identidade de uma marca e aproximá-la dos consumidores.
- A estratégia por trás de Nescafé Fazedores
- Quem são as famílias retratadas na campanha?
- Quando a embalagem passa a contar histórias
- O papel da sustentabilidade na narrativa
- Origem do café como estratégia de branding
- Uma campanha integrada, da embalagem às redes sociais
- A continuidade da estratégia com Sabrina Sato
- O que outras marcas de alimentos podem aprender?
- O café tem uma história antes de chegar à xícara
Por trás de uma xícara de café, existem histórias que nem sempre aparecem na embalagem. Famílias, gerações de produtores, técnicas de cultivo e mudanças na vida no campo fazem parte de uma cadeia que geralmente permanece distante do consumidor.
Em maio de 2025, a Nescafé decidiu colocar essas histórias no centro de sua comunicação.
A campanha Nescafé Fazedores, desenvolvida pela agência DPZ, apresentou quatro famílias de cafeicultores brasileiros como protagonistas de uma ação que reuniu embalagens especiais, filmes publicitários, mídia externa e conteúdos digitais.
Em vez de concentrar a narrativa apenas no produto final, a marca destacou as pessoas responsáveis pelo cultivo do café.
A proposta integrou a plataforma global Make Your World, apresentada no Brasil como Faça seu Mundo, e ofereceu um exemplo de como origem, memória familiar e inovação agrícola podem se transformar em elementos de branding.
A estratégia por trás de Nescafé Fazedores
A iniciativa procurou aproximar o consumidor das pessoas que participam da produção do café solúvel da marca.
Quatro famílias parceiras foram selecionadas para representar histórias de trabalho, sucessão familiar e transformação no campo.
Seus rostos e trajetórias apareceram em rótulos de edição especial, ampliando a presença dos cafeicultores em um dos pontos de contato mais importantes entre marca e consumidor: a embalagem.
A campanha também contou com um filme produzido pela Vetor Zero, produção de som da Jamute e ações em diferentes canais de comunicação.
Essa combinação permitiu utilizar uma mesma proposta editorial em formatos distintos.
Nas embalagens, o consumidor encontrava os produtores. Nos filmes e conteúdos digitais, podia conhecer mais sobre suas histórias.
Para a marca, a estratégia reforçava a associação entre qualidade do café, origem e relações com sua cadeia de fornecimento.
Quem são as famílias retratadas na campanha?
As histórias apresentadas pela Nescafé mostram diferentes maneiras de conciliar tradição e inovação no cultivo de café.
Entre os protagonistas estão Kaézia, Kiki e Cássio Bianchini, uma família ligada à produção de café conilon no Espírito Santo.
O projeto destacou a continuidade do trabalho familiar e a incorporação de novas práticas na propriedade.
Outra história é a de Carol e Luiz Carlos Gomes, que desenvolveram iniciativas relacionadas à recuperação da vegetação e à biodiversidade em sua área de produção.
Luiza Bonomo representou uma trajetória de continuidade feminina na cafeicultura, envolvendo diferentes gerações de mulheres e a produção de cafés especiais.
Já Airam e Eugênio Quiuqui ilustraram o encontro entre experiência e tecnologia.
Airam deixou o trabalho em escritório para atuar na propriedade do avô, incorporando ferramentas de gestão e desenvolvendo um aplicativo voltado a pequenos produtores.
As quatro histórias foram escolhidas para apresentar diferentes dimensões da produção cafeeira brasileira.
Do ponto de vista da comunicação, a campanha transformou narrativas individuais em exemplos de uma mensagem mais ampla: o café é resultado do trabalho de pessoas com histórias, escolhas e conhecimentos próprios.
Quando a embalagem passa a contar histórias
Um dos aspectos mais relevantes da campanha foi a utilização das embalagens como espaço narrativo.
Tradicionalmente, rótulos de café apresentam informações como marca, variedade, características do produto e mensagens institucionais.
Em Nescafé Fazedores, os produtores passaram a ocupar uma posição de destaque nessa comunicação.
A embalagem deixou de apresentar apenas o produto e passou a funcionar também como uma introdução às pessoas envolvidas em sua origem.
Essa escolha ajudou a estabelecer uma conexão entre dois universos que muitas vezes aparecem separados: a rotina de compra no supermercado e a produção agrícola.
Para profissionais de marketing e branding, o caso demonstra como o design de embalagens pode participar de uma estratégia de conteúdo.
Entretanto, contar histórias no rótulo não garante automaticamente maior confiança ou preferência pela marca.
A eficácia depende da percepção do consumidor, da clareza das informações e da consistência entre a narrativa apresentada e as práticas reais da empresa.
O papel da sustentabilidade na narrativa
A campanha também destacou a relação da Nescafé com produtores participantes de seu programa de abastecimento responsável.
No Brasil, a iniciativa é apresentada como Cultivado com Respeito, vinculada ao Nescafé Plan.
Na divulgação da campanha original, a Nestlé informou que mantinha relacionamento com aproximadamente 2.200 produtores parceiros, incluindo iniciativas de apoio técnico e incentivo a práticas agrícolas consideradas mais sustentáveis.
Essas informações ajudam a contextualizar a proposta da marca, mas exigem uma distinção importante.
Participar de um programa corporativo de agricultura regenerativa não significa, por si só, comprovar benefícios ambientais específicos em todas as propriedades.
Resultados como recuperação do solo, redução de emissões e melhoria de produtividade dependem de indicadores, metodologias e períodos de avaliação.
Para o consumidor, essa transparência é fundamental.
A narrativa de sustentabilidade ganha maior credibilidade quando acompanhada de dados verificáveis e informações claras sobre os projetos desenvolvidos.
Origem do café como estratégia de branding
A valorização da origem não é novidade no universo dos cafés especiais.
Regiões produtoras, métodos de processamento, características sensoriais e trajetórias familiares já fazem parte da comunicação de muitas torrefações e cafeterias.
O movimento da Nescafé foi levar parte dessa abordagem para uma campanha de uma grande marca de café solúvel.
Essa escolha é relevante porque amplia os atributos utilizados na comunicação de uma categoria normalmente associada à praticidade e à conveniência.
O produto continua sendo importante, mas passa a integrar uma história que inclui pessoas e práticas de produção.
Na estratégia de marca, isso pode contribuir para diferenciar a comunicação e oferecer novos assuntos para o relacionamento com o consumidor.
O desafio está em evitar que as histórias dos produtores sejam utilizadas apenas como recurso estético.
A valorização da origem precisa estar conectada a relações comerciais e práticas verificáveis na cadeia produtiva.
Uma campanha integrada, da embalagem às redes sociais
A execução de Nescafé Fazedores combinou diferentes canais.
Além dos rótulos especiais, a marca utilizou filmes, mídia exterior, influenciadores e conteúdos digitais para apresentar os cafeicultores.
Essa integração ajudou a ampliar as possibilidades de contato com a mensagem.
Uma pessoa poderia conhecer a campanha no supermercado e depois encontrar conteúdos complementares nas redes sociais.
Outra poderia descobrir a iniciativa por meio de uma publicação digital e reconhecer os produtores ao visualizar a embalagem.
O diferencial estava na continuidade da narrativa entre os pontos de contato.
No marketing gastronômico, esse tipo de estratégia pode ser especialmente interessante porque aproxima a comunicação do produto efetivamente consumido.
Uma história divulgada na publicidade também aparece no objeto que chega à casa do cliente.
Por outro lado, sem dados públicos de alcance, conversão e vendas associados especificamente à campanha, não é possível determinar seu retorno financeiro ou afirmar que a iniciativa aumentou a preferência pela marca.
Seu valor como estudo de marketing está principalmente na construção e na execução da estratégia de comunicação.
A continuidade da estratégia com Sabrina Sato
A valorização das pessoas que produzem café voltou a aparecer na comunicação da Nescafé em abril de 2026.
Na ocasião, a marca apresentou uma campanha com Sabrina Sato, que passou a conhecer mais de perto a atividade de cafeicultores ligados ao Nescafé Plan.
A iniciativa também envolveu a propriedade rural da família da apresentadora, localizada em Piraju, no interior paulista.
A participação de Sabrina acrescentou uma personalidade conhecida do público a uma proposta que continuou destacando produtores reais e atividades desenvolvidas no campo.
Embora as campanhas tenham formatos diferentes, existe uma ligação temática entre elas.
Em ambas, a comunicação procura aproximar o consumidor do universo da cafeicultura e mostrar que a trajetória do café começa antes de sua chegada à xícara.
Essa continuidade é relevante para analisar a construção de marca.
Uma campanha isolada pode gerar atenção pontual. A repetição coerente de determinados temas ao longo do tempo pode ajudar a consolidar uma identidade reconhecível.
Ainda assim, os resultados dessa estratégia precisam ser avaliados por meio de indicadores específicos de marca e de negócio.
O que outras marcas de alimentos podem aprender?
A principal lição de Nescafé Fazedores está na escolha de um assunto diretamente relacionado ao produto.
Em vez de desenvolver uma narrativa desconectada de sua atividade, a marca buscou histórias na própria cadeia de produção do café.
Isso criou oportunidades para abordar tradição, sucessão familiar, tecnologia e origem em uma mesma plataforma de comunicação.
Outro aprendizado é a utilização da embalagem como meio de contar histórias.
O rótulo pode apresentar informações relevantes que complementam a publicidade e ampliam a identidade visual da marca.
A campanha também demonstra a importância de integrar diferentes canais sem perder a coerência da mensagem.
Por fim, o caso chama atenção para a necessidade de fundamentar alegações institucionais.
Quando uma marca comunica iniciativas ambientais e sociais, precisa distinguir compromissos, atividades realizadas e impactos efetivamente demonstrados.
Esse cuidado não reduz o potencial criativo das campanhas. Ao contrário, contribui para tornar a comunicação mais confiável.
O café tem uma história antes de chegar à xícara
Nescafé Fazedores é um exemplo de como uma marca de alimentos pode utilizar a origem de seu produto como ponto de partida para a comunicação.
Ao apresentar famílias cafeicultoras em embalagens e conteúdos publicitários, a campanha aproximou o consumidor de uma etapa da cadeia produtiva que normalmente recebe menor visibilidade.
O projeto também permitiu explorar temas como tradição, inovação e continuidade familiar.
Mais do que uma ação sobre café, o case apresenta uma reflexão sobre o papel das histórias reais no branding alimentício.
A comunicação pode contribuir para que o consumidor conheça melhor a origem de um produto, desde que preserve o compromisso com informações claras e verificáveis.
Em uma indústria na qual as marcas disputam atenção diariamente, apresentar as pessoas por trás do alimento pode ser uma forma de ampliar a narrativa — sem perder de vista que a confiança se constrói com experiências e práticas concretas.
- Nestlé Brasil — Comunicado oficial da campanha, maio de 2025. Identifica a agência DPZ, famílias participantes e canais da campanha
- Meio & Mensagem — Cobertura da campanha. Confirma o contexto publicitário e a execução.
- Exame — Campanha com Sabrina Sato, abril de 2026. Fonte para o desenvolvimento posterior da estratégia

