Novo projeto da chef Telma Shimizu e do confeiteiro Rafael Aoki combina técnicas japonesas, ingredientes brasileiros e uma proposta que traduz a relação entre duas culturas gastronômicas. A abertura está prevista para 27 de outubro.
- Como a confeitaria nipo-brasileira da Aimê ganhou identidade própria
- Yuzu, mel de jataí e cumaru entram na vitrine
- Pães e preparações salgadas ampliam o cardápio
- Matchá com jabuticaba e cafés de diferentes origens
- Ingredientes brasileiros ajudam a contar uma história de imigração
- Aimê amplia os formatos de experiência gastronômica em Pinheiros
- Aimê — serviço
- Fontes consultadas
O yuzu encontra o mel de abelhas brasileiras, o matchá aparece combinado à jabuticaba e o missô entra na receita de um pão amanteigado. Essas aproximações ajudam a apresentar a Aimê, nova confeitaria nipo-brasileira que tem abertura marcada para 27 de outubro de 2026, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.
O projeto nasce da trajetória do restaurante Aizomê, comandado pela chef Telma Shimizu, e ganha um endereço próprio depois de três anos de desenvolvimento de receitas. À frente da produção está o chef-pâtissier Rafael Aoki, responsável por explorar ingredientes e técnicas que fazem parte tanto da tradição confeiteira japonesa quanto da alimentação brasileira.
A proposta encontra inspiração na história da imigração japonesa no país, especialmente na maneira como ingredientes cultivados no Brasil foram incorporados aos hábitos alimentares de famílias e comunidades de origem nipônica.
Para traduzir essa conexão, Telma propõe o termo hakugashi, utilizado para definir uma confeitaria baseada em técnicas e princípios japoneses, mas construída também com ingredientes e referências brasileiras.
Como a confeitaria nipo-brasileira da Aimê ganhou identidade própria
A produção de doces do Aizomê começou dentro do próprio restaurante japonês. Com o desenvolvimento de novas receitas e a ampliação da operação, a confeitaria passou a construir um repertório que justificava a criação de uma marca independente.
De acordo com reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, o projeto reúne cerca de 35 receitas desenvolvidas ao longo de três anos e se relaciona com quatro operações do grupo.
A experiência acumulada inclui o Aizomê Café, na Japan House São Paulo, onde a combinação entre confeitaria e cafeteria já faz parte da proposta gastronômica.
Na Aimê, essa produção ganha um espaço voltado ao consumo de pães, doces e bebidas, além de opções para levar.
O nome hakugashi foi apresentado por Telma Shimizu como uma maneira de expressar a identidade que deseja construir. Na confeitaria japonesa, termos como wagashi e yogashi já possuem significados conhecidos, associados respectivamente aos doces tradicionais japoneses e às preparações influenciadas pela confeitaria ocidental.
A expressão proposta pela chef busca reconhecer uma terceira relação: a da culinária japonesa desenvolvida no Brasil, com ingredientes disponíveis no território e influências construídas ao longo de gerações.
Essa perspectiva aparece tanto nas escolhas de sabores quanto na origem das matérias-primas utilizadas pela equipe.
Yuzu, mel de jataí e cumaru entram na vitrine
Entre as receitas anunciadas está o hakumitsu, uma sobremesa que parte da referência da torta de limão, mas utiliza ingredientes menos habituais nessa preparação.
O doce combina musse de yuzu e mel de jataí, base de shortbread de castanha-de-caju, compota de pera e gelatina de yuzu. O resultado pretendido pela equipe é articular diferentes aromas e texturas em uma composição que se aproxima da confeitaria contemporânea.
A vitrine também deve reunir versões de choux, massa francesa que pode receber coberturas crocantes e recheios variados. Uma das criações divulgadas utiliza carvão de bambu, cacau e creme de matchá.
Os bombons seguem a mesma linha de aproximação entre ingredientes, com recheios que incluem jabuticaba, cambuci e ganache de cumaru.
Segundo as informações divulgadas antes da inauguração, a casa pretende trabalhar com 12 opções sazonais de doces. A sazonalidade poderá permitir alterações no cardápio conforme a disponibilidade das matérias-primas e as escolhas de produção.
Esse formato combina com uma proposta em que os ingredientes têm papel importante na construção das receitas. Frutas, méis e produtos de diferentes origens brasileiras oferecem possibilidades que vão além das combinações mais conhecidas do repertório tradicional de confeitarias.
A MoodFood ainda não realizou uma visita ou degustação independente da Aimê. As características dos produtos apresentadas nesta reportagem correspondem às informações divulgadas sobre o projeto.
Pães e preparações salgadas ampliam o cardápio
A confeitaria também terá opções salgadas.
Entre elas está o shiopan, pão japonês amanteigado que, na versão desenvolvida para a Aimê, recebe creme de alho, Catupiry, missô e alga em flocos.
A combinação reúne ingredientes de repertórios diferentes. O missô acrescenta notas fermentadas à preparação, enquanto o requeijão cremoso brasileiro participa da composição do recheio.
Outra receita anunciada é o hotto póchi, uma interpretação de cachorro-quente que utiliza o pão como base para salsicha alemã, salada de repolho, maionese de mostarda japonesa, molho okonomiyaki e furikake.
As escolhas ajudam a posicionar a Aimê como um endereço para diferentes momentos do dia, sem restringir a proposta ao consumo de sobremesas.
A presença de panificação e salgados também aproxima a operação do formato de cafeteria, ampliando as possibilidades de pedidos individuais e de combinações entre comida e bebida.
Matchá com jabuticaba e cafés de diferentes origens
A carta de bebidas foi desenvolvida com a participação do barista Cauã Sperling, que já colaborava com a seleção de grãos do Aizomê Café.
Um dos destaques anunciados é o matchá jabuticaba latte, preparado com compota de jabuticaba, leite e espuma de matchá.
A bebida reúne a presença vegetal característica do chá verde japonês com a fruta brasileira, oferecendo outra aplicação para a proposta de aproximação entre culturas.
A seleção também deve incluir cafés de diferentes origens e métodos de preparo, entre eles o Origami, coador manual associado ao universo dos cafés especiais.
Essa variedade permite que a cafeteria explore tanto receitas elaboradas quanto bebidas em que as características dos grãos sejam percebidas diretamente.
Para um projeto que trabalha com sobremesas de ingredientes aromáticos, a escolha das bebidas ocupa uma função importante. Café e chá podem complementar a degustação, mas também representam produtos com identidade própria no cardápio.
A parceria entre confeitaria e barismo cria espaço para combinações que dialogam com sabores da cozinha brasileira, sem abandonar as referências japonesas que orientam a casa.
Ingredientes brasileiros ajudam a contar uma história de imigração
A relação entre o Japão e o Brasil também aparece na pesquisa sobre a origem de ingredientes.
Entre os produtos em estudo pela equipe está o cacau de Tomé-Açu, município do Pará conhecido pela presença de uma importante comunidade de descendentes de japoneses e pela produção agrícola desenvolvida em sistemas diversificados.
A ligação com esse território amplia a discussão sobre a maneira como comunidades de imigrantes participaram da produção de alimentos no país.
A confeitaria pode funcionar como uma forma de apresentar essas histórias ao público, tornando visíveis ingredientes que carregam relações com o cultivo, a origem e o desenvolvimento de tradições alimentares.
Essa abordagem exige atenção à procedência dos produtos e ao modo como são descritos. Quando a origem de uma matéria-prima integra a proposta gastronômica, ela também passa a fazer parte das informações que ajudam o consumidor a compreender o que está sendo servido.
No caso da Aimê, a pesquisa de ingredientes está conectada ao trabalho que Telma Shimizu desenvolve em torno da culinária japonesa no Brasil.
Aimê amplia os formatos de experiência gastronômica em Pinheiros
O novo endereço terá um salão com aproximadamente 20 lugares e vista para a cozinha, em uma rua de Pinheiros que concentra estabelecimentos voltados à alimentação e ao consumo de bebidas.
A proposta combina atendimento presencial e produtos para viagem. O formato permite que a marca apresente doces individuais, pães, cafés e uma seleção de itens que poderão ser consumidos em diferentes ocasiões.
Para o mercado de gastronomia, a criação de uma confeitaria independente a partir de um restaurante reconhecido representa uma possibilidade de expansão de marca baseada em competências já desenvolvidas.
A operação passa a ter uma identidade própria, um cardápio específico e uma ocasião de consumo diferente daquela oferecida pelo restaurante principal.
O desafio comercial será construir reconhecimento para a Aimê sem depender exclusivamente da reputação do Aizomê. Isso envolve consistência de produção, atendimento e capacidade de comunicar ingredientes que ainda podem ser pouco familiares para parte do público.
Ao apresentar a confeitaria nipo-brasileira como uma proposta própria, Telma Shimizu e Rafael Aoki também ampliam a discussão sobre como receitas japonesas continuam sendo reinterpretadas no Brasil.
A abertura da Aimê acrescenta mais um capítulo à presença da culinária japonesa na gastronomia paulistana, agora com foco em doces, pães e bebidas que refletem uma história compartilhada entre ingredientes, técnicas e territórios.
Aimê — serviço
Endereço: Rua Benjamim Egas, 275, Pinheiros, São Paulo.
Abertura anunciada: 27 de outubro de 2026.
Horários previstos: terça a sábado, das 9h às 18h; domingos, das 10h às 18h.
Proposta: confeitaria, cafeteria, panificação e opções para viagem.
As informações de funcionamento correspondem ao anúncio de pré-inauguração e estão sujeitas a alterações.
Fontes consultadas
- Folha de S.Paulo — Aimê, do Aizomê, quer abrir caminho para uma confeitaria nipo-brasileira, publicada em 15 de outubro de 2026.
- VEJA São Paulo — Aizomê estreia sobremesas no cardápio, reportagem sobre as criações de Rafael Aoki e a relação entre as confeitarias japonesa e ocidental, publicada em dezembro de 2025.
- VEJA São Paulo — Terceira unidade do Aizomê começa a operar nesta terça (21), publicada em julho de 2026.
- VEJA São Paulo — informações sobre o Aizomê e a atuação de Telma Shimizu e Rafael Aoki, atualizadas em 2026.

